No centro de Arcanum existe uma região que não pertence verdadeiramente a nenhum reino conhecido.
Um abismo colossal, antigo e profundo, cujos limites nunca foram encontrados. Ninguém sabe ao certo quando ele surgiu.
Alguns acreditam que o Abismo nasceu junto de Arcanum, como uma falha deixada durante a formação do mundo. Outros afirmam que ele foi criado depois, quando algo poderoso demais precisou ser removido da superfície. Há ainda aqueles que defendem uma hipótese mais inquietante:
O Abismo não teria sido criado.
Ele sempre esteve ali.

Durante eras, porém, suas passagens permaneceram seladas. Portões, ruínas e estruturas erguidas ao redor de suas profundezas sugerem que povos antigos conheciam o perigo abaixo — e fizeram tudo o que podiam para impedir que ele alcançasse a superfície.
Os selos resistiram por muito tempo.
Até começarem a falhar.
O Mundo Sob Arcanum
O Abismo não é apenas uma caverna profunda.
Quanto mais se desce, menos suas estruturas obedecem às leis naturais de Arcanum. Túneis conduzem a lugares que não deveriam caber sob a terra. Ruínas surgem em profundidades onde nenhuma civilização conhecida poderia ter existido. Horizontes escuros podem ser vistos onde deveria haver apenas rocha.
Alguns estudiosos acreditam que existe um mundo inteiro abaixo de Arcanum.
Outros suspeitam que existam vários.

Superfície
Os reinos, florestas, cidades e criaturas de Arcanum
Decadência
Tudo aquilo que é perdido, esquecido, corrompido ou rejeitado
Abismo
Um mundo inferior formado pelo acúmulo dessa deterioração
O Abismo parece crescer a partir de tudo aquilo que decai nos mundos acima dele.
Não apenas corpos.
Memórias esquecidas, energias corrompidas, desejos abandonados, magias fracassadas e fragmentos de criaturas que deixaram de existir parecem afundar lentamente para suas profundezas. Ali, esses resíduos não desaparecem.
Eles se acumulam.
Transformam-se.
E aprendem a assumir novas formas.
Por isso, alguns arcanistas descrevem o Abismo como o lugar para onde Arcanum envia tudo aquilo que não consegue destruir por completo.
O Nascimento dos Abissais
Os Abissais são manifestações formadas nas profundezas do Abismo.
Eles não constituem uma raça com origem, cultura ou linhagem comum. Cada Abissal é o resultado de energias deterioradas que se acumularam até adquirirem matéria, instinto e vontade.
Alguns nascem de restos de criaturas que foram consumidas pelas profundezas. Outros parecem ser moldados a partir de emoções, lembranças ou magias que apodreceram durante séculos. Existem ainda manifestações tão antigas que nenhum estudioso consegue identificar aquilo que lhes deu origem.
O surgimento de um Abissal não é um nascimento comum.
Também não é uma invocação tradicional.
É a deterioração aprendendo a viver.
Nos primeiros estágios, essas manifestações podem apresentar formas incompletas: membros que desaparecem na escuridão, corpos cobertos por matéria instável ou rostos que parecem pertencer a várias criaturas ao mesmo tempo.
Com o tempo, porém, a energia do Abismo estabelece uma forma mais definida.
E aquilo que antes era apenas decadência passa a caçar.
Os Ceifadores
A maioria dos Abissais conhecidos manifesta-se como Ceifadores.
São criaturas moldadas para percorrer as profundezas, recolhendo aquilo que cai da superfície e conduzindo os restos para regiões ainda mais profundas. Não se sabe se cumprem uma função natural do Abismo ou se obedecem a algo que permanece escondido abaixo.
Seus corpos variam, mas certas características aparecem com frequência:
Corpos alongados
Estruturas magras, extensas ou desproporcionais, adaptadas às passagens profundas.
Membros de coleta
Garras, lâminas, correntes e apêndices usados para arrastar matéria para o interior do Abismo.
Sentidos incomuns
Percebem Anima, medo, morte e deterioração mesmo através da pedra.

Os Ceifadores não caçam apenas para se alimentar.
Eles recolhem.
Cadáveres, objetos amaldiçoados, fragmentos de magia e criaturas ainda vivas podem ser levados para as profundezas. O destino do que é capturado permanece desconhecido, pois quase nada retorna.
E aquilo que retorna já não consegue explicar o que encontrou.
Um Ecossistema de Decadência
Apesar de sua aparência caótica, o Abismo parece possuir um ecossistema próprio.
As camadas superiores são habitadas por manifestações menores, atraídas pela energia que escapa dos mundos acima. Nas regiões mais profundas, encontram-se seres antigos, adaptados a concentrações de deterioração capazes de destruir uma criatura comum em poucos instantes.
Quanto mais fundo se desce, menos reconhecíveis se tornam seus habitantes.
Predadores alimentam-se de resíduos arcanos. Colônias crescem sobre ruínas soterradas. Criaturas menores vivem dentro de Abissais maiores, consumindo lentamente sua energia até emergirem como novas manifestações.

Existem relatos de florestas sem luz, formadas por estruturas semelhantes a ossos. Lagos escuros que refletem lugares inexistentes. Cidades inteiras erguidas de cabeça para baixo sobre aberturas ainda mais profundas.
Ninguém sabe se essas regiões nasceram dentro do Abismo.
Ou se foram engolidas por ele.
O Vazamento Abissal
O Abismo permaneceu selado durante eras, mas seus selos já não são perfeitos.
Quando sua energia encontra uma passagem, ela começa a influenciar a superfície. Esse fenômeno é conhecido como Vazamento Abissal.
Fendas antigas, ruínas subterrâneas e lugares marcados por grandes concentrações de morte são pontos comuns de vazamento. A energia emerge de forma lenta, contaminando o solo, a água, as criaturas e até a magia local.

Quando o vazamento continua, as alterações deixam de ser individuais.
Regiões inteiras podem sofrer mutações.
Florestas mudam de forma. Cavernas crescem em direções impossíveis. Construções afundam sem que o solo se mova. Seres Abissais menores começam a surgir nos arredores, anunciando que a fronteira entre os dois mundos está enfraquecendo.
O Abismo não precisa se abrir por completo para transformar aquilo que existe acima dele.
Basta que respire através de uma rachadura.
As Mutações da Superfície
Nem toda criatura alterada pela energia do Abismo se torna um Abissal.
Os verdadeiros Abissais são manifestações originadas em suas profundezas. Já os seres da superfície contaminados por essa energia continuam pertencendo, ao menos inicialmente, às suas espécies originais.
Essa distinção, porém, pode desaparecer com o tempo.
A exposição prolongada modifica carne, consciência e Anima. Algumas criaturas desenvolvem sentidos incomuns, novas estruturas corporais ou uma necessidade inexplicável de se aproximar das fendas. Outras perdem lentamente suas características naturais até se tornarem irreconhecíveis.
Exposição breve
Febre, alucinações, alterações de comportamento e sensibilidade à energia abissal.
Exposição prolongada
Mutações físicas, deformação da Anima e perda gradual da identidade.
Contaminação profunda
A criatura passa a agir como uma extensão do Abismo e pode já não reconhecer o mundo ao qual pertencia.
Os estudiosos ainda discutem se essa transformação possui um limite.
Há quem acredite que um ser contaminado jamais se torna um Abissal verdadeiro. Outros defendem que, após tempo suficiente, o Abismo substitui completamente aquilo que a criatura era.
Nesse ponto, a diferença deixa de importar.
Aqueles que Adentram
Exploradores, estudiosos, arcanistas e expedições inteiras já tentaram compreender as profundezas do Abismo.
Poucos retornaram.
Nenhum voltou completamente ileso.
Alguns regressam com o corpo alterado. Outros mantêm a aparência original, mas demonstram mudanças profundas de comportamento. Esquecem seus próprios nomes, reconhecem lugares onde nunca estiveram ou passam noites descrevendo paisagens que não existem na superfície.

Há sobreviventes que afirmam ter permanecido poucos minutos lá dentro, embora tenham desaparecido por anos. Outros juram ter atravessado cidades inteiras durante meses e retornado no mesmo dia em que partiram.
O Abismo transforma tudo o que atravessa seus limites.
Carne.
Memória.
Tempo.
Mesmo aqueles que escapam carregam algo de volta.
E, em muitos casos, a criatura que retorna sabe coisas que jamais deveria ter aprendido.
O Que Permanece Selado
Os antigos selos encontrados ao redor do Abismo foram construídos com técnicas de diferentes épocas e civilizações. Alguns são simples barreiras arcanas. Outros utilizam estruturas tão complexas que não podem ser reproduzidas pelos estudiosos atuais.
Isso indica que o Abismo foi selado mais de uma vez.
E por povos distintos.
A cada falha, novas barreiras parecem ter sido erguidas sobre as anteriores, formando camadas de contenção ao redor de algo que jamais pôde ser verdadeiramente destruído.

A maior dúvida não é o que os selos impedem de entrar.
É o que impedem de sair.
Os Ceifadores podem ser apenas as manifestações capazes de atravessar as regiões superiores. Criaturas mais antigas talvez permaneçam abaixo, presas não por falta de força, mas porque ainda não encontraram uma passagem grande o bastante.

Por essa razão, cada vazamento provoca temor entre aqueles que conhecem a história das profundezas.
Uma rachadura nunca é apenas uma rachadura.
É um caminho sendo aberto.
A Influência Sobre Arcanum
Mesmo selado, o Abismo afeta o mundo.
Sua energia alimenta mutações, altera regiões naturais e atrai estudiosos interessados em compreender forças que não existem em nenhum outro lugar. Alguns arcanistas acreditam que ela pode ser controlada e utilizada como fonte de poder.
Outros consideram essa ideia uma sentença de morte.
A energia abissal não responde como a Anima nem se comporta como a Essência. Ela não cria a partir da vida.
Ela remodela a partir daquilo que foi perdido.
Todo uso dessa energia estabelece uma ligação com as profundezas. Quanto mais alguém a manipula, mais fácil se torna para o Abismo reconhecer sua presença.
E talvez olhar de volta.
Características
- São manifestações originadas nas profundezas do Abismo.
- Não formam uma raça única, possuindo diferentes origens e estruturas.
- Surgem da deterioração de matéria, Anima, memórias e energias provenientes dos mundos acima.
- Manifestam-se, em sua maioria, como criaturas conhecidas como Ceifadores.
- Habitam um possível mundo subterrâneo composto por incontáveis regiões e, talvez, dimensões inteiras.
- Podem apresentar formas incompletas, mutáveis ou incompatíveis com as leis naturais de Arcanum.
- A energia do Abismo provoca mutações quando vaza para a superfície.
- Criaturas contaminadas não são necessariamente Abissais, mas podem perder gradualmente sua forma e identidade.
- Seres que entram no Abismo raramente retornam — e aqueles que voltam jamais permanecem os mesmos.
- Sua existência sugere que algo muito mais antigo continua selado nas regiões inferiores.
Os Abissais nascem daquilo que o mundo perdeu.
E, sob Arcanum, nada permanece perdido para sempre.

